quinta-feira, 24 de junho de 2010

Liberdade: Brasão de Armas

O Leão da Guarda Real á direita, O Dos Castelos á esquerda, O Guarda Bandeiras aos lados, O Guarda de Serviço ao centro e no peito ao lado esquerdo bato na minha armadura com o bastião da verdade onde a insignia da ordem de guerra desarmada dá lugar á paz eterna como paga após milhares de anos de sangue derramado entre a humanidade. - Magno Jardim

sábado, 5 de junho de 2010

Império de liberdade

Para não afirmar o obvio,
Como diria em titulo de intodução,
Não são ruas aquelas que não se cruzam,
Mas labirintos que se perdem nas metafisicas da alma,
Sem saber e demais querer.

Nada que uma pessoana saiba
O que outrora fez nas mais levedias...

Querias o resto ?

Ficou-me pelos cabelos e
Em pensamentos de insensatez
Se o que diria é certo.

Pela segunda vez
Em jeito de sentimento
Que a água desfez,
Pergunto-lhe.

Que me foi que utrora ergueu,
Que me fez levar daqui a malvadez ?

Em jeito de cifra,
Que foi o que nada
Alguma vez fez ?

Foi da mensagem a decifra
Que pelo nome
Aquele que deus fez ?

O imperador,
Aquele que só tem da alma
o que lhe dizia ?

Diga-lhe também
Que d´entre naves e navios
Não há barca que o leve.

D´ainda que depois do desenho
Arquitetado no vidro embaciado
Parecendo que de dentro
Estava nevoeiro.

Nevoeiro?

Apenas a neblina Mista
Que percorre as ruas
Á procura de Império,
Não sejam os raios de sol
A protestar.

Daqui só o levedar daquela
Massa branca de que são
Feitos os sonhos,
De um estrear amarelo
da luz do dia.

Estrelas que indicam o
Caminho num mar de algodão
Onde assenta a paz
Daquela que brilha,
Á espera do reflexo que
A faça prosperar.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Manoel de Barros: a poética da reinvenção

Domingo, Abril 11
Manoel de Barros: a poética da reinvenção


Fonte: Jornal de Poesia


O motivo central dessa edição é uma investigação acerca de determinados recursos estilísticos e explorações semânticas que se comportam como elementos recorrentes na escritura do poeta Manuel de Barros, (natural de Corumbá, Mato Grosso - 1916) cuja projeção nacional se deu a partir dos anos 1980, mas que, de há muito, já vinha chamando a atenção dos críticos e dos analistas acadêmicos, especialmente por conta de uma dicção própria, concentrada, de modo mais intenso, na captação das coisas simples do dia-a-dia, mesmo que estas nem sempre comportem a atmosfera do que a tradição acostumou-se a identificar como inerente ao material poético.
Carlos Augusto Viana, Editor


O trabalho de Manoel de Barros, trata-se, portanto, de uma poesia intrigante, desafiadora e, sobretudo, inaugural. Seus livros já antecipam a estranheza poética nos próprios títulos, tais como: ´Poemas concebidos sem pecados´ (1937), ´Face imóvel´ (1942), ´Compêndio para uso dos pássaros´ (1961), ´Gramática explosiva do chão´ (1969), ´Arranjos para assobio´ (1983), ´livro de pré-coisas´ (1986), ´O guardador de águas´ (1989), ´O livro das ignorãças´ (1993), ´Livro sobre o nada´; (1996), ´Retrato do artista quando coisa´ (1998), dentre outros. Percorrermos, assim, um dos múltiplos caminhos desse poeta lavrador que colhe do chão as palavras.




Se, em João Cabral de Melo Neto, havemos a identificação da palavra com a pedra, isto é, a idéia de uma aprendizagem do poeta no sentido de tirar lições da pedra: com esta podendo aprender a exatidão da forma, a impassibilidade, a resistência à porosidade, sendo, portanto, impermeável a sentimentalismo, sob a severidade das rimas toantes; em Manoel de Barros, se sedimenta a concepção da palavra como um organismo vivo: a palavra-vegetal, a palavra-animal:


Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.


ou, quando não, a palavra-mineral - mas esta, ao contrário da palavra-pedra em João Cabral, extática e impassível, anuncia-se portadora de anima:


Adoecer de nós a Natureza:
- botar a aflição nas pedras.


Como se vê, a palavra, enquanto morada do poético, imprime-se como a marca fundamental da criação literária de Manoel de Barros. É daí que resulta a sua poesia, ou seja, do seu próprio cotidiano com as palavras, estabelecendo entre elas novas relações, produzindo efeitos novos, para, assim, poder extrair a forma oculta que se toda forma abriga. Tudo nele é preocupação com a linguagem, ´uma vontade de recuperar a virgindade das palavras. A sua atitude de casar uma palavra já gasta com outra também gasta parece produzir a primeira vez de uma palavra´. (Barbosa, 2003, p.17) Nesse sentido, o poeta busca não apenas simples relações semânticas, pois, mais que isso, aspira às ressonâncias, aos ritmos inefáveis, às inumeráveis sensações:


Mas eram coisas desnobres como intestinos de moscas
que se mexiam por dentro de suas palavras.
Gostava de desnomear:
para falar barranco dizia: lugar onde avestruz
esbarra.
Rede era vasilha de dormir.
Traços de letras
que um dia encontrou nas pedras de
uma gruta, chamou: desenhos de uma voz.
Penso que fosse um escorço de poeta.


A poética de Manoel de Barros se enquadra na categoria daquelas coisas que, segundo Santo Agostinho, existiam para ser desfrutadas, isto é, prazer em si mesmo. Nesse sentido, o discurso é elaborado a partir de um entrelaçamento de palavras para que desemboquem sempre num jogo de pensamento, do qual se depreende o inesperado ou a estranheza:


Desinventar objetos.
O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.


Eis o universo de Manoel de Barros: a invenção. Ou reinvenção. Há, em toda a sua construção poética, o gosto pelo desvio ou o gozo de palmilhar o não-sabido. Persegue, sobretudo, o nada, pois é daí que espera extrair a essência do que desconhece. Trata-se, a rigor, de uma aprendizagem às avessas: desaprender para, assim, ter condições de que apalpar o invisível; desse modo, ignorando as coisas pode, enfim, reencontrá-las.


A primeira parte do Livro das Ignorãças tem como título ´Uma didática da invenção´, e a epígrafe bem sintetiza os poemas: ´As coisas que não existem são mais bonitas´, isto é, a poesia habita o gênesis, daí a reiteração dos exercícios de metalinguagem, uma vez que a poesia quer conhecer a si mesma, anseia deparar o que havia na imagem antes que esta se revelasse. Memória e aprendizagem se inter-relacionam. Em Manoel de Barros ocorre, exatamente, aquela epifania drummoniana do ´esquecer para lembrar´:


Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que
[ é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.


Nesse excerto, - como em tantos outros - observa-se que as palavras gravitam as altas zonas da linguagem, à semelhança dos pontos privilegiados que a magia discerne e une misteriosamente no mundo: a ´criança´, ao mudar ´a função de um / verbo´, não delira, mas, sim, o próprio ´verbo´, tocado, agora, pela transformação; por isso, o poético reside em ´fazer nascimentos´, em entregar as palavras ao delírio.


Insetos que se arrastam, árvores que voam, arbustos que cantam - tudo isso implica, na poética de Manoel de Barros, o desdobramento de imagens que comunicam a revelação. As palavras se movem no poema, e o leitor nunca se cansa de se surpreender; a poesia concretiza, pela força da imaginação, o pensamento especulativo no próprio âmago do espírito:


Para entender nós temos dois caminhos:
[o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Eu escrevo com o corpo.
Poesia não é para compreender,
[mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.


Nesse exercício de metalinguagem, o poeta aborda, com extrema agudeza, a problemática do que a poesia comunica, cuja natureza, como se vê, é, essencialmente, inefável. O estado poético, portanto, comporta a desintegração das coisas, a decomposição da crosta que as envolve: ´Desaprender oito horas por dia ensina os princípios´. Em outras palavras, o estado poético consiste em mergulhar no avesso das coisas, em descascar o que há muito já se encontra cristalizado pela cultura. Ser poeta é inverter. Ser poeta é transgredir:


No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
e um sapo engole as auroras.


Das imagens do ´dia (que) dorme antes´; da ´tarde (que) está competente para / dálias´; do ´sapo (que) engole as auroras´, brota o estado poético que o autor inscreve em cada um de nós - os leitores. Todos nos tornamos, então, cúmplices dessa música, do encantamento que suscita. Os seres, as coisas, os sentimentos saem, subitamente, de sua existência ordinária em direção ao indefinível - e o que conhecemos muda, magicamente, de valor. Tudo se converte em música. Não uma música qualquer, mas uma outra que percorre todos os nossos sentidos e nos solicita por inteiro:


Insetos cegam meu sol.
Há um azul em abuso de beleza.
Lagarto curimpãpã se agarrou no meu remo.
Os bichos tremem na popa.
Aqui até a cobra eremisa, usa touca, urina na fralda.
Na frente do perigo bugio bebe gemada.
Periquitos conversam baixo.


Eis, em síntese, o discurso literário de Manoel de Barros, de que se evola um universo singularmente harmonioso, uma vez que tal harmonia advém da própria poesia, que nos torna ressonantes e *consoantes com ela. Um universo que permanece em nós, exatamente porque não nos é imposto, mas tão-somente sugerido. É o sonho que emana de uma percepção.


*Consonantes ?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O FIO DE UM CABELO

O FIO DE UM CABELO

Abandono a casa o horto o lugar à mesa
o casaco de que gostava, sobre o leito dobrado
esta verdade quase banal
que toda a vida fui

Não abro a porta quando batem
(às vezes batiam só por engano)
não avalio o balanço das certezas
o que separa uma forma de outra
sempre me escapou

Ontem começava a clarear
o ar frio que vinha dos campos
julguei-o de passagem e afinal
era um segredo que meu corpo
de uma vez por todas contava
ao meu corpo

Mas quando tombei sobre a terra
perdido como um fio de cabelo
(aqueles que primeiro caem
da cabeça de um rapaz
e por não serem notados
são mais perdidos ainda)
estavas junto de mim

Lançaste ao fogo cidades
afogaste os exércitos
no vermelho mar da sua ira
hipotecaste terras tão preciosas
para estares junto de mim

José Tolentino Mendonça

com a devida vénia, de DE IGUAL PARA IGUAL, Assírio & Alvim, Março de 2001

quarta-feira, 31 de março de 2010

[Tem o poeta uma fisga]

[Tem o poeta uma fisga]

Tem o poeta uma fisga
E um caroço de azeitona
E dele ninguém se pisga
Sem levar uma na mona

O poeta é como um puto
Não há muros que não salte
Nem árvore cujo fruto
Lhe negue o sabor de malte

E mesmo que o tempo passe
E na barba nasça neve
Em cada dia ele faz-se
E desfaz-se no que escreve

Xavier Zarco

segunda-feira, 29 de março de 2010

CEDO OU TARDE

CEDO OU TARDE

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.

Albano Martins

com a devida vénia, de ESCRITO A VERMELHO, Campo das Letras, Editores, S.A., Maio de 1999

domingo, 28 de março de 2010

rem novae

De Rerum Novarum
Ad perpetuam rei memoriam
in re.

Sete árvores para cada ser humano

Sete árvores para cada ser humano


Para que um ser humano consiga respirar, são necessárias sete árvores. Cada ser humano é responsável por sete árvores. Um casal é responsável por catorze árvores e cada um dos seus filhos por mais sete árvores. Se não vive junto de árvore alguma, junte-se a uma qualquer campanha com o seu parceiro e filhos e plantem sete árvores por cada membro da família. Ser humano é precisar de sete árvores para respirar. Isso não lhe diz nada?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Os direitos das crianças, por Pedro Strecht

Os direitos das crianças, por Pedro Strecht


“Se se fizerem duas simples perguntas a um membro dessa geração: ‘como quer que seja o mundo daqui a cinquenta anos?’ e ‘o que quer que seja sua vida daqui a cinco anos?’, as respostas serão quase sempre precedidas por: ‘desde que ainda haja um mundo’ e ‘desde que eu ainda esteja vivo’. Nas palavras de George Wald, ‘aquilo com que nos defrontamos é uma geração que de forma alguma está segura de ter um futuro’. Pois o futuro, segundo Spender, é como uma bomba-relógio enterrada, cujo tique-taque soa no presente. À frequente questão: ‘quem são eles, esta nova geração?’, pode-se estar tentado a responder: ‘aqueles que ouvem o tique-taque” (ARENDT, 1969, p. 22)




O texto que se segue é de Pedro Strecht, pedo-psiquiatra, do livro Crescer Vazio, 3.ª edição, 1998. O Outro acrescentaria ao texto que "Todas as crianças têm o direito de acreditar que existe um futuro." O Outro acredita ainda que, se estes direitos fossem respeitados, não haveria violência nas escolas.




Todas as crianças com mais de cinco anostêm direito a desabafar.
Todas as crianças até aos onze ou doze anos têm direito a andar grátis no Carrocel quando estão de férias.
Todas as crianças que andam na Escola têm direito a serem alegres, terem amigos e a brincarem com os outros. Têm direito a ter uma Professora que não grite com elas.
Todas as crianças têm direito a ver o mar verdadeiro, especialmente em dia de maré vazia.
Todas as crianças têm direito a, pelo menos uma vez na vida, escolher um chocolate que lhes apeteça.
Todas as crianças têm direito a terem orgulho na sua existência.
Todas as crianças têm direito a pensar e a sentir como lhes manda o coração, até serem velhas, aí com uns vinte anos.
Todas as crianças têm direito a terem em casa o Pai e a Mãe, os irmãos, se houver, e comida. Se o Pai e Mãe não conseguirem viver juntos têm direito a que cada um deles respeite o outro.
Todas as crianças têm direito a deitarem-se no chão para ver as nuvens passar, imaginando formas de todos os bichos do Mundo combinadas com as coisas que quiserem (por exemplo, um cão a andar de patins ou uma girafa de orelhas compridas).
Todas as crianças têm direito a começarem uma colecção não interessa de quê.
Todas as crianças têm direito a chupar o dedo indicador que espetaram num bolo acabado de fazer ou então lamber a colher com que raparam a taça em que ele foi feito.
Todas as crianças têm direito a tentarem manter-se acordadas até tarde numa noite de Verão, na esperança de verem uma estrela cadente e pedirem três desejos (a justiça devia fazer acontecer sempre pelo menos um).
Todas as crianças têm direito a escrever ou a falar uma linguagem inventada por elas (ou que julgam inventada por elas), como por exemplo a «linguagem dos pês»: «apalinpingupuapagempem dospos pêspês».
Todas as crianças têm direito a imaginar o que vão querer fazer quando forem grandes (habitualmente coisas extravagantes) e a perguntar aos adultos «o que queres ser quando fores pequenino?».
Todas as crianças têm direito a dormir numa cama sua, sentindo o cheiro da roupa lavada, e a terem um espaço próprio na casa, pelo menos a partir do ano de idade.
Todas as crianças têm direito a passear na rua tentando pisar apenas o empedrado branco (ou só o preto); em opção, têm direito a fazer uma viagem contando quantos carros vermelhos passam na faixa contrária.
Todas as crianças meninos têm direito a, pelo menos uma vez na vida, perguntar a uma menina «queres ser a minha namorada?» e todas as meninas têm direito a, pelo menos uma vez na vida, responder, «sim,quero».
Todas as crianças têm direito a ouvir um adulto contar pelo menos uma destas histórias: Peter Pan, o Principezinho ou o Príncipe Feliz.
Todas as crianças têm direito a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormirem e depois, a sonhar com elas.
Todas as crianças têm direito a ter um boneco de peluche preferido, especialmente quando velho, já lavado e mesmo com um olho a menos.
Todas as crianças (especialmente se já adolescentes) têm direito a usar os ténis preferidos, mesmo que rotos e com cheiro tóxico.
Todas as crianças têm direito a poder tomar banho sozinhas e a experimentar mergulhar na banheira contando o tempo que aguentam sem respirar.
Todas as crianças têm direito a jogar aos polícias e ladrões, preferindo inevitavelmente serem ladrões.
Todas as crianças têm direito a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como numa concha e receber mimos.
Todas as crianças têm direito a nascer iguais em direitos.
Todas as crianças têm direito a conhecer o sítio onde nasceram e a visitá-lo livremente.
Todas as crianças têm direito a não ficarem sozinhas a chorar.
Todas as crianças têm direito a viver num País que tenha um Ministério da Infância e Juventude, que olhe verdadeiramente pelo crescimento afectivo e bem-estar interior (sem preconceitos adultocêntricos ou hipocrisias com ares de cromo abrilhantado).
Todas as crianças têm direito a acreditar que têm um adulto que olha por elas e as ama sem condição prévia (nem que seja Nosso Senhor).
Todas as crianças têm direito a viver felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um psiquiatra fala sobre a depressão e a tristeza

O Dr. Luís Ferreira é psiquiatra e director de Serviço do Hospital Magalhães Lemos.

"A obsessão com o crescimento económico e a fé cega na cultura do trabalho parecem não estar a dar bons frutos em ter-mos de saúde mental das pessoas e de saúde física do plane-ta."

"E o bem-estar, a harmonia com o mundo, a ética, a estética e a racionalidade?
Pode ser que venham a ser conquistados pelos descontentes e tristes num futuro em que o tempo para pensar e fruir seja retirado ao tempo para produzir e poluir;"

"e em que os Invernos da alma sejam vistos como prelúdios necessários às Primaveras."

"Ora se a tristeza e as "depressões ligeiras" podem até ser úteis na criação de respostas alternativas e beneficiam pouco com os tratamentos, valerá a pena diagnosticá-las e tratá-las?"

"Claro que no sistema vigente as dificuldades de uns são sempre oportunidades de negócios para outros e até de eventual descida do défice das contas públicas."

"Por outro lado, a tristeza e alguns estados de humor depressivo menos graves podem constituir-se como reacções adequadas a problemas pessoais, a stress no trabalho ou mesmo como reacções ao sistema de organização social."

"Trata-se de um psiquiatra, mas de um que, obviamente, vê o ser humano por inteiro e aborda estes temas com essa visão, uma visão do Outro."

Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus

Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus


Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.

Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.


Miguel Esteves Cardoso in As Minhas Aventuras na República Portuguesa